Toda análise de ação precisa responder a duas perguntas diferentes — e quem mistura as duas paga caro. A primeira é “esta empresa é boa?”: lucro consistente, dívida sob controle, gestão decente, vantagem competitiva. A segunda é “o preço de hoje faz sentido?”. Uma empresa excelente comprada cara pode ser um investimento ruim; uma empresa medíocre comprada barata também. No Sardinha, a primeira pergunta é o trabalho da Grade. A segunda acaba de ganhar cinco réguas clássicas — todas calculadas exclusivamente com dados oficiais da CVM e da B3, todas com as premissas declaradas na página.
Nenhuma dessas réguas é nossa. São métodos publicados por cinco investidores e professores que passaram décadas sendo testados — e cada um enxerga o preço por um ângulo que os outros ignoram. É exatamente por isso que mostramos os cinco lado a lado: quando réguas diferentes discordam sobre o mesmo ativo, a divergência em si é informação.
Graham: o chão do valor
Benjamin Graham, o pai do value investing, propôs uma conta deliberadamente conservadora: o valor justo é a raiz quadrada de 22,5 × lucro por ação × valor patrimonial por ação. A régua ancora o preço em duas coisas que a empresa já tem — lucro e patrimônio — e ignora promessas. Por construção, ela pune empresas de crescimento e não avalia empresas no prejuízo (a página diz isso em vez de fingir um número). É a leitura de “margem de segurança”: comprar abaixo do valor de Graham é comprar com desconto sobre o que já existe. No Sardinha, Graham é o primeiro velocímetro de cada ação, o eixo de preço do quadrante “barato ou caro? e é bom?” — e é o único método que entra na Grade, como critério de Margem de Segurança.
Bazin: o teto por renda
Décio Bazin, jornalista e investidor brasileiro, olhava só para uma coisa: dividendos. Sua regra — preço-teto = dividendo por ação dos últimos 12 meses ÷ 6% — responde a uma pergunta bem prática: “a que preço este ativo me paga pelo menos 6% ao ano em renda?”. É a régua de quem vive de proventos. O limite é evidente: ela não enxerga crescimento nem empresas que reinvestem em vez de distribuir. No Sardinha, Bazin é o segundo velocímetro de cada ação.
Lynch: crescimento a preço razoável
Peter Lynch popularizou o PEG: P/L dividido pelo crescimento anual do lucro. A intuição é que um P/L de 20 pode ser barato para uma empresa que cresce 25% ao ano e caríssimo para uma que cresce 3%. PEG abaixo de 1 sugere que o crescimento não está sendo pago; acima de 2, que está sendo pago duas vezes. No Sardinha, o crescimento usado é o CAGR do lucro por ação OFICIAL — lucro atribuído das demonstrações da CVM dividido pelas ações de cada exercício, o que captura diluição — e o preço-teto de Lynch (LPA × crescimento) usa uma banda declarada de 6% a 25% ao ano, para não extrapolar nem euforia nem depressão. Quando o CAGR nasce de uma base de lucro deprimida ou há prejuízo na janela, a página avisa com um asterisco em vez de esconder. É o terceiro velocímetro, novo, em cada ação.
Greenblatt: barato E eficiente, em forma de ranking
Joel Greenblatt fez uma pergunta diferente: em vez de “quanto vale esta ação?”, “quais ações da bolsa estão baratas E são eficientes ao mesmo tempo?”. Sua fórmula usa dois fatores: Earnings Yield (EBIT ÷ valor da firma — quanto lucro operacional você compra por real investido) e ROIC (EBIT ÷ capital investido — quão bem a empresa transforma capital em resultado). Cada ação recebe uma posição em cada fator, e o ranking final é a soma das posições. Não existe preço-teto aqui: a resposta é uma posição relativa, tipo “#48 de 110”. Financeiras e seguradoras ficam fora — regra do próprio método, porque EBIT não é comparável quando o balanço é o negócio — e units e BDRs ficam fora por não terem âncora oficial por ação na CVM. O EBIT vem das demonstrações oficiais, com a base (12 meses ou exercício) declarada em cada ativo.
sardinha.net/listas/formula-de-greenblatt — as ações da B3 ordenadas pela fórmula, com a Grade Sardinha ao lado de cada uma. O ranking é o método puro; a Grade é a lente de qualidade. Quando o #1 do ranking aparece com Grade baixa, isso não é contradição — é a transparência fazendo o trabalho dela.
Damodaran: a pergunta invertida
Aswath Damodaran é a referência mundial em valuation por fluxo de caixa descontado. O DCF completo, porém, exige projetar receita, margem e crescimento por dez anos — e pequenas mudanças nas premissas viram preços-alvo completamente diferentes. Preferimos a versão honesta do método: o reverse-DCF. Em vez de inventar premissas para chegar a um preço, partimos do preço de mercado e perguntamos: “que crescimento perpétuo de caixa este preço já assume?”. A conta usa o fluxo de caixa livre oficial (mediana dos últimos três exercícios, para amortecer capex irregular) e uma taxa de desconto declarada: o Tesouro Prefixado mais longo mais 5 pontos de prêmio de risco. O resultado aparece ao lado do crescimento REAL do lucro da empresa — e a comparação fala por si.
Um exemplo didático do dia do lançamento: uma das empresas mais admiradas da bolsa aparecia “muito cara” nos três velocímetros. O reverse-DCF explicou o porquê em uma linha — o preço embutia crescimento perpétuo de 16% ao ano, enquanto o lucro oficial dos últimos cinco anos cresceu 6,4% ao ano. Nenhum juízo de valor: só a distância, medida, entre o que o mercado assume e o que a empresa entregou. Quando o fluxo de caixa livre mediano é negativo, a página também diz — “queima caixa, reverse-DCF não aplicável” — em vez de fabricar um número.
Onde cada régua mora no Sardinha
Uma decisão de desenho importante: nenhum dos métodos novos entrou na Grade. A Grade Sardinha continua respondendo “esta empresa é boa?” com os mesmos 16 critérios de sempre — os mesmos que o backtest público validou (sardinha.net/backtest). Lynch, Greenblatt e Damodaran são leituras complementares de PREÇO, declaradas e separadas, exatamente como o histórico oficial de múltiplos que já mostramos. Misturar as duas perguntas numa nota só esconderia mais do que revelaria.
Régua nenhuma decide por você. Cinco réguas honestas, lado a lado, decidem muito menos — e informam muito mais.
— Metodologia do Cardume
Conteúdo educacional e informativo. Os métodos descritos são réguas simplificadas de valuation, calculadas sobre dados públicos oficiais; nenhum número desta página é preço-alvo, recomendação de compra ou de venda. Rentabilidade passada não garante resultado futuro. Antes de investir, considere seu perfil, seus objetivos e, se necessário, um profissional certificado.

Fundador do Sardinha. Escreve sobre a tese por trás do método — por que critério vence palpite — e lidera o research da plataforma.
Aviso: conteúdo educacional e informativo. Não constitui recomendação ou consultoria de valores mobiliários (CVM). Dados podem conter latência. Toda decisão de investimento é de responsabilidade do leitor.



